quinta-feira, 31 de março de 2016

IMPERFEITA


Me olho no espelho e me amo. Tenho manchas de espinhas, olheiras escuras e olhos caídos. Minhas sobrancelhas nunca parecem estar feitas e nem sempre meu buço está em dia. Me olho no fundo dos olhos e vejo pintinhas escuras na minha íris. Íris castanha clara, com um contorno castanho escuro. Olho mais um pouco e vejo mais. Me vejo por dentro.

E as pequenas imperfeições no meu rosto se tornam pano de fundo.

Vejo o universo de sentimentos, experiências e expectativas que sou e me dispo diante de mim mesma. Não preciso mentir para quem eu vejo no espelho. Mesclo orgulho e raiva para servirem de combustível para meus objetivos e conquistas. Pareço confiante e sedutora, mas só quero ser aceita e querida. A insegurança de ficar sozinha na vida é aterrorizante demais, mas não diga que vai me prender, isso me sufoca e vai me matando um dia por vez.

Em dias intensos, tenho vontade de me jogar e beber até cair desmaiada. E o faço. Vezes sinto vergonha, onde estava com a cabeça? O que os outros vão pensar de mim? Mas aí tenho um estalo e me aceito assim, entendo que precisava transbordar os sentimentos, que eram muitos, para ficarem dentro do peito. Falo alto. Grito. Dou gargalhadas. Choro. Nenhum sentimento é fraco demais para ficar escondido. A transparência faz com que eles saiam sempre, fiquem em evidência sempre. Não consigo esconder nada. Nem de mim, nem dos outros.

Depois de tantos anos desequilibrada, procuro balancear a vida, acertar os eixos, ter mais empatia, mais maturidade, lidar com os problemas com sabedoria. Mas no fundo eu só queria agir como uma adolescente irresponsável e fazer o que tenho vontade, lá no fundo. Fazer todas aquelas loucuras que ouço as minhas amigas me contarem, aquelas que eu nunca vivi. Me comporto como se soubesse muito bem o que fazer em todas as situações porque esperam isso de mim. A verdade é que eu também estou confusa e perdida e em dúvida. O tempo todo.

Ah! A dúvida. Sentimento latente, que cresce silencioso e vira turbilhão na minha vida. A dúvida de estar no caminho certo. De estar feliz. A dúvida é uma das minhas piores inimigas, sempre. Ela me sabota. Só não me sabota mais que o medo. Ainda nos meus 15 anos, me achava puramente corajosa, destemida, aventureira. Aos 25 já não tenho tanta certeza se tenho o desprendimento necessário para me jogar. O medo me trava. Sufoca. 

E são nessas pequenas imperfeições que me encontro completa, nelas que eu vejo o tempero da minha personalidade. Eu nada seria sem os meus defeitos, por isso me aceito e me amo assim. O resto é só propaganda enganosa.

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