quarta-feira, 18 de março de 2015

Diário da blogueira: Às vezes precisamos falar sobre Política

política
po.lí.ti.ca
sf (gr politiké) 1 Arte ou ciência de governar. 2 Arte ou ciência da organização, direção e administração de nações ou Estados. 3 Aplicação desta arte nos negócios internos da nação (política interna) ou nos negócios externos (política externa).



Este não é um tema recorrente no meu blog. Mas preferi escrever aqui, que é um espaço MEU (e você acessa SE quiser) ao invés de causar no Facebook.

Aos 15 anos eu já tinha lido o Manifesto do Partido Comunista, emprestado de uma querida professora de Geografia. Apesar de não ter compreendido a obra por completo, foi ali que comecei a me interessar e entender mais sobre política. Talvez alguém venha dizer que isso me transformou numa "comunistasinha cubana", mas peço encarecidamente, que leia até o final.

No terceiro ano do colegial eu precisei fazer um TCC e escolhi fazer sobre história (melhor opção para mim na ocasião). E de todas as matérias, era o único com "tema livre" e aos dezesseis anos eu decidi SOZINHA falar sobre o papel da mulher durante a ditadura. Numa escola pública da periferia de São Paulo. Não era feminista, nem partidária. Somente porque não tivemos metade das aulas sobre ditadura que precisávamos. Aliás, necessitávamos. Fui até à USP para consultar os livros sobre o regime militar (porque minha internet era discada e precisava estudar durante a semana), simplesmente para entender melhor o que aconteceu naquele período, que ainda era tão turvo para mim.

A essa idade eu não tinha tantas convicções quanto hoje, mas eu já sabia fazer algo muito importante: questionar os fatos.

Consegui uma bolsa de estudos e entrei na faculdade com 17 anos e foi no primeiro ano que tive como leitura obrigatória livros de teoria da comunicação e história contemporânea, como a Era Dos Extremos, de Eric Hobsbawm. Li também, por causa da faculdade, os livros Notícias do Planalto (que fala sobre a cobertura jornalística do Impeachment do presidente Collor), O que é Democracia, O que é Ditadura, e muitos outros livros, jornais, artigos e reportagens relacionados à história e história política brasileira.

Foi também na faculdade que vi diversos conceitos de Karl Marx sendo explorados. Numa faculdade particular. E não falávamos de comunismo. Falávamos de Teoria da Comunicação e como os indivíduos eram alienados, falando a grosso modo.

Meu último estágio de comunicação foi escrever para o site da UNE (União Nacional dos Estudantes), trabalhei por quase um ano com política e movimento estudantil.

Me formei jornalista e, apesar de todas as pilhas de textos que li e escrevi sobre política, fui trabalhar com beleza, minha real paixão.

Dito tudo isso, posso falar um pouco sobre o que penso sobre o cenário atual da política brasileira.

Fiquei todo esse tempo sem me pronunciar tão somente para não entrar no debate com quem quer que seja. E antes que você pule alguns parágrafos, eu não vou falar abertamente do meu posicionamento, não acho que esse seja o ponto, tanto faz o meu posicionamento quando as pessoas não sabem nem o que estão defendendo.

Vi muitas pessoas do meu convívio assumirem que bateram panelas durante o pronunciamento da presidente no dia 8/03. Vi muitas dessas pessoas postarem em seus Facebooks que eram contra a corrupção e que queriam o Impeachment de Dilma Roussef. Observei milhares de pessoas dizendo que o PT afundou o Brasil. E ouvi ainda que todo brasileiro que usa/usou algum tipo de benefício oferecido pelo governo é folgado, semiletrado e corrupto.

E vi somente pessoas que não sabiam a complexidade do que estavam fazendo e falando. Vi pessoas que nunca pegaram o caderno de política de qualquer jornaleco para se informar. Vi pessoas que sempre trocaram de canal quando o bloco do Jornal Nacional era sobre Brasília. Vi preconceito e desinformação.

Não me veja como generalista, longe de mim, mas uma grande parcela dos novos revoltados do Brasil estava sofrendo de um grande mal da humanidade: memória curta. Vi placas pedindo a intervenção militar. Cheguei a ver até mesmo quem defendesse a volta da Ditadura (que tem diferença, tá?), vi gente acreditando CEGAMENTE que, caso a presidente fosse deposta, o senador Aécio Neves assumiria a presidência do Brasil. Resumindo, vi muita merda. (E não quer dizer que SÓ vi merda).

E tive vontade de perguntar tantas coisas. Como:

Você realmente quer que o vice presidente do Brasil assuma? Vice presidente esse que faz parte do partido que mais aparece na lista de políticos envolvidos no esquema de propina da Petrobrás?

Você realmente acredita que a Dilma é a culpada por todos os problemas que estão acontecendo? Você realmente acha que ela governa tudo isso aqui sozinha?

Você sabe quantos políticos governam o país?

Você é realmente contra a corrupção?

Então porque você não bateu panelas para o Mensalão Mineiro? Para o caso Alstom? Para o aeroporto particular construído com dinheiro público? Para o estado do Maranhão que foi assolado por uma única família há tantos anos? Para a falta de investimentos no sistema de distribuição da água, principalmente em SP? Para os casos de prefeitos roubando dinheiro das escolas públicas no sertão? Para candidatos corruptos comprando votos com o dinheiro do arroz e feijão antes das eleições de 2014?

Você tem certeza que essa revolta crescente dentro de você é insatisfação com o que os engravatados de Brasília fizeram com o nosso país? Ou só é pirraça? Ser do contra? Achar que que está fazendo a diferença no mundo?

Você tem real consciência daquilo que está falando?

Não acho errado ir para rua protestar por um país melhor. Acho errado fazer parte de uma massa acéfala, que pensa pela cabeça dos outros. Que vai na onda da festa, que acha que por estar lá, no meio de milhares de pessoas, tá fazendo a diferença no mundo.

Pessoas lutaram anos atrás, durante o regime militar, para que pudéssemos colocar nossas caras em nossas varandas gourmets e batermos nossas panelas até mesmo para a maior autoridade do país. Antes, de 1964 a 1985, quem fizesse isso era chamado de traidor e tinha dois destinos: ser exilado ou torturado (e muitas vezes morto). Agradeça por ter liberdade para isso. Agradeça por poder dizer o que pensa.

Você pode, e deve, protestar diariamente por aquilo que acredita. Mas não seja um ser alienado.

Não adianta ir para a rua no domingo pedir um país melhor e na segunda fechar os olhos para a política mais uma vez. É preciso um pouco mais de coerência, obrigada. E não venha cometer crime de ódio disfarçado de revolta e manifestação. Nunca xingue uma mulher de VACA por sua incompetência. Não xingue de "petralha" ou de "elite branca" quem pensa diferente de você. Vivemos numa democracia, não num grande campeonato da Libertadores, precisamos da coerência e da sanidade quando vamos fazer política. Não é porque não penso igual à você que automaticamente sou sua inimiga.

Eu só li o MPC na adolescência porque eu aprendi a questionar tudo aquilo que me apresentavam. Eu só fiz um TCC sobre a ditadura porque eu queria entender melhor esse período da história. Eu fiz faculdade de jornalismo e aprendi que questionar era primordial para a vida de qualquer pessoa. Questionar e observar.

E foi dessa forma que eu aprendi a decidir por mim. Escolher minhas próprias lutas. Defender meus pontos. Ter argumentos e preparo. E, mesmo trabalhando com beleza diariamente, eu abro a editoria de política para saber o que está acontecendo com o meu país. E se alguém me mandar bater panelas, eu o mandarei à merda, pois bato panelas quando eu bem entender.

Sou paulistana, cresci em um dos bairros mais perigosos de SP, estudei em escola pública e fiz faculdade com uma bolsa do PROUNI, conquistada com a minha nota no ENEM, há sete anos.  Hoje pago todas as minhas contas e impostos com o suor do meu trabalho.

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